A Polícia Federal atribui a Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, a elaboração de carteiras fraudulentas de crédito consignado repassadas ao BRB. O banco público do Distrito Federal adquiriu R$ 12,2 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário consideradas falsas. Auditoria interna estima prejuízo mínimo de R$ 5 bilhões. Documentos tornados públicos detalham mensagens, pagamentos e reuniões que, segundo a PF, ligam Lima diretamente às negociações.
Contexto da investigação e origem das carteiras
A Polícia Federal sustenta que as carteiras de crédito consignado transferidas pelo Master ao BRB foram montadas com base em operações iniciadas em associações de servidores públicos da Bahia e posteriormente ampliadas. A consultoria Tirreno, constituída em dezembro de 2024, atuou como intermediária entre janeiro e junho de 2025. Mensagens apreendidas mostram que Augusto Lima passou a elaborar diretamente essas carteiras a partir de janeiro de 2025. O documento cita textualmente que as carteiras, a partir de janeiro de 2025, aparentemente passaram a ser elaboradas pelo próprio Augusto Lima. Para reforçar o protagonismo de Lima, o documento cita que ele e Henrique Peretto, apontado como controlador e dono da Tirreno, trocaram mensagens para participarem juntos de uma reunião com o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, em 28 de maio de 2025. Outro indicativo do papel de Lima, segundo a PF, são os conteúdos de mensagens enviadas por Vorcaro. Os investigadores afirmam que Vorcaro recorreria pessoalmente a Lima para conseguir recursos no BRB. A representação cita textualmente que o ex-banqueiro preso recorria a Lima para que ele interviesse para que o banco público fizesse pagamentos ao Master.
Pagamentos do Master à Terra Firme e coincidências com liberações do BRB
Entre 2022 e 2025, a Terra Firme, empresa controlada por Lima, recebeu R$ 186 milhões do Master, além de quase R$ 74 milhões por meio de uma filial. Notas fiscais de R$ 3,6 milhões em agosto de 2024 e de R$ 7 milhões em abril de 2025 coincidiram, segundo a PF, com momentos em que Lima atuava para liberar recursos do BRB. A polícia considera que esses repasses, formalmente justificados como pagamento de serviços, podem indicar desvio de recursos. Em 29 de agosto de 2024, segundo o documento, um funcionário chamado Raimundo envia a Lima uma nota da Terra Firme ao Master. Logo depois, Lima envia o contato de Alberto Félix, tesoureiro do Master. A imagem da nota fiscal, reproduzida na página, mostra o valor de R$ 3.665.962,47. Depois, em 7 de abril de 2025, aparecem mais duas notas, de R$ 3.334.230,12 e R$ 3.665.962,47, totalizando R$ 7.000.192,59 em um único lote de cobranças. A PF também identificou e considerou suspeitos repasses do Master para a Terra Firme, empresa do conglomerado que pertence a Lima. Os repasses eram formalmente justificados como pagamento por serviços, mas, segundo a PF, podem indicar desvio de recursos da instituição.
Problemas identificados pelo BRB já em 2024
Em novembro de 2024, o BRB detectou inconsistências em uma carteira Credcesta avaliada em R$ 179,6 milhões no balanço, mas apenas R$ 110 milhões foram considerados aptos, representando corte de quase 40 %. O então presidente Paulo Henrique Costa e o diretor Dário Garcia autorizaram elevação do limite de inadimplência de 4 % para 5 % e a compra em tranches, sem reiniciar todo o processo de aprovação. A polícia afirma que isso já evidenciaria inconsistências no material enviado pelo Master. Em outro trecho, a PF diz que Dário, com aval de Paulo Henrique, movimentou-se para ampliar de 4% para 5% o limite de inadimplência admitido nas carteiras e que novas compras seriam feitas em partes (tranches), sem reiniciar todo o ciclo de aprovação.
Posição da defesa de Augusto Lima
A defesa de Lima nega veementemente as alegações. Afirma que ele deixou a sociedade e a direção do Master em 28 de maio de 2024, conforme registro no Banco Central, e que não participou de negociações com o BRB nem assinou documentos de cessão. Os pagamentos à Terra Firme teriam sido realizados conforme contratos regulares de prestação de serviços efetivamente cumpridos. A defesa considera que a PF repete acusações antigas já afastadas por elementos colhidos na investigação. Em nota enviada à Folha, a defesa de Augusto Lima rechaçou de forma veemente o conteúdo da petição. Não há fundamento para atribuir a Augusto Lima os ilícitos mencionados, afirmou. As informações e insinuações mencionadas reproduzem alegações formuladas no início da investigação e que, passados dez meses de apuração, não se sustentam diante dos próprios elementos já reunidos. A defesa também rechaça que o empresário tenha tido proximidade com BRB e a negociação de carteiras. Jamais tratou com qualquer representante do BRB sobre supostas carteiras falsas e não participou das negociações. Não assinou documentos de cessão de carteiras ao BRB nem prestou informações falsas ao Banco Central. Tampouco manteve tratativas com órgãos de fiscalização sobre esses fatos ou foi responsável pela contabilidade do Banco Master. Segundo a defesa, a Polícia Federal já afastou, em relatório, a alegação envolvendo as associações. Quanto às transferências mencionadas pela reportagem, havia contrato regular de prestação de serviços, e os serviços contratados foram prestados, afirma. Insinuar, apenas em razão dos valores envolvidos, que esses pagamentos representariam desvio de recursos em favor de Augusto Lima é uma ilação grave e sem respaldo nos fatos, diz a nota. Segundo a defesa, também é preciso considerar a questão cronológica. Diz que Augusto Lima deixou a sociedade e a direção do Master em 28 de maio de 2024, conforme documentação do Banco Central. A operação policial ocorreu somente em 18 de novembro de 2025, um ano e seis meses depois de seu desligamento. Desde o início das apurações, Augusto Lima permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários. Após dez meses de investigação, a defesa considera inadmissível que acusações antigas sejam novamente apresentadas como novidade, ignorando elementos já conhecidos da própria apuração. A defesa ainda reitera que confia que a investigação será conduzida de forma técnica, isenta e com absoluto respeito aos fatos e ao devido processo legal, tendo a certeza de que a inocência ficará comprovada.
Frequently asked questions
Quais valores o BRB adquiriu do Master?
O BRB comprou R$ 12,2 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário consideradas fraudulentas pela Polícia Federal.
Qual o prejuízo estimado para o BRB?
Auditoria interna citada na petição calcula prejuízo mínimo de R$ 5 bilhões decorrente das compras desses ativos.
Quando Augusto Lima teria deixado o Master?
Documentos do Banco Central indicam que Lima deixou a sociedade e a direção em 28 de maio de 2024.
Por que a PF liga Lima às liberações do BRB?
Mensagens e pagamentos à Terra Firme coincidiram com momentos em que Lima interveio para que o BRB efetuasse pagamentos ao Master.
O que diz a defesa sobre as associações da Bahia?
A defesa afirma que a própria Polícia Federal já afastou, em relatório anterior, a alegação de irregularidade nas associações de servidores.
Key takeaways
- PF atribui a Augusto Lima a elaboração das carteiras de R$ 12,2 bilhões vendidas ao BRB.
- Auditoria interna estima prejuízo mínimo de R$ 5 bilhões ao banco público.
- Pagamentos superiores a R$ 3 milhões do Master à Terra Firme coincidiram com intervenções de Lima.
- BRB já detectou corte de 40 % em carteira de R$ 179,6 milhões em novembro de 2024.
- Defesa nega participação de Lima em negociações e afirma que ele deixou o Master em maio de 2024.
Perspectiva do caso
O documento de 82 páginas, assinado digitalmente em fevereiro de 2026, foi endereçado ao ministro André Mendonça, do STF, para obter autorização de quebra de sigilo bancário e fiscal dos envolvidos. A investigação segue em curso e a defesa reitera que Lima permanece à disposição das autoridades.