Novo perfil de consumidor transforma o mercado de refeições prontas

O crescente uso de medicamentos emagrecedores à base de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, está influenciando diretamente os hábitos alimentares de parte da população brasileira — e o setor de marmitas e alimentos congelados já percebeu essa mudança. Empresas do segmento passaram a adaptar seus produtos para atender a um consumidor que come menos, mas busca maior qualidade nutricional.

Pequenos empreendedores já oferecem nas redes sociais os chamados "kits de marmitas Mounjaro", com porções reduzidas de até 250 gramas e alto teor proteico. Grandes marcas do setor também se movimentam na mesma direção, lançando linhas específicas voltadas ao emagrecimento e à performance.

Empresas registram crescimento expressivo nas vendas

A Liv Up, empresa especializada em marmitas congeladas, afirma que suas linhas de emagrecimento e performance esportiva — lançadas no ano passado — já dobraram de tamanho em vendas. Segundo Victor Santos, CEO e cofundador da empresa, o percentual de clientes que declara usar medicamentos GLP-1 cresceu de 5% para 10% da base em apenas um ano, com alta de 2,5 pontos percentuais a cada semestre.

"Daqui a um ano, provavelmente vamos ver esse número passando de 20%, refletindo os efeitos da quebra da patente", afirmou Santos.

As linhas de emagrecimento e performance da Liv Up caminham para atingir R$ 150 milhões em vendas no segundo ano de operação, com crescimento superior a 50% previsto para 2026 em comparação a 2025.

Setor de congelados avança no país

O crescimento não se limita a uma empresa. Segundo o grupo Imarc, o mercado de alimentos congelados no Brasil atingiu US$ 5,9 bilhões em 2025 e deve alcançar US$ 7,8 bilhões até 2034, impulsionado principalmente pelo segmento de refeições prontas para consumo.

Dados do iFood reforçam essa tendência: os pedidos de marmitas congeladas cresceram 13% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. O estado de São Paulo lidera em volume, com alta de 24% ano a ano, mas outros estados se destacam com crescimentos ainda mais expressivos.

  • Ceará: +136%
  • Espírito Santo: +81%
  • Rio de Janeiro: +25,7%
  • Goiás: +25,2%
  • Santa Catarina: +23%

Marcas adaptam embalagens e portfólios

A Vapza, empresa conhecida por alimentos embalados a vácuo como feijão e grão-de-bico já cozidos, ingressou no segmento de refeições prontas no ano passado. A companhia investiu em maquinário importado para lançar pratos como feijoada, estrogonofe, canja de galinha e lentilha com bacon. Além disso, passou a destacar a quantidade de proteína nas embalagens de seus produtos.

"As pessoas não vão deixar de comer, elas só vão consumir menos e melhor", disse Enrico Milani, CEO da Vapza. A empresa registrou crescimento de 15% no faturamento e 12% no volume de vendas em 2025, impulsionada pela nova linha de refeições prontas.

A Seara, marca pertencente ao grupo JBS, também anunciou uma linha de refeições prontas baseada no conceito "clean label", com ingredientes simples e de fácil identificação no rótulo, que inclui desde feijoada até carne moída com legumes.

Impactos no mercado financeiro

A tendência também chama atenção dos analistas financeiros. Em relatório publicado em fevereiro, a XP Investimentos avaliou que empresas do setor de proteína animal — incluindo JBS, MBRF e Minerva — estão entre as mais favorecidas pela disseminação do uso de GLP-1, uma vez que usuários desses medicamentos tendem a valorizar mais e a pagar mais por proteínas de qualidade.

Por outro lado, companhias como AmBev, M. Dias Branco e Camil podem enfrentar maior pressão, já que os medicamentos tendem a reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, alimentos ultraprocessados e produtos açucarados — categorias centrais para esses negócios.