Fenômeno Climático Reposiciona Estratégias Corporativas no Brasil
O El Niño, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do oceano Pacífico, vem alterando padrões climáticos e elevando temperaturas globalmente desde junho. No Brasil, o fenômeno tem levado diversas empresas listadas no Ibovespa a revisarem seus planejamentos estratégicos, com parte delas identificando vulnerabilidades e outra parte enxergando janelas de oportunidade.
Um levantamento realizado com base nas teleconferências de resultados do segundo trimestre do ano, envolvendo 76 companhias do principal índice da bolsa brasileira, revelou que os impactos do chamado super El Niño são sentidos de forma assimétrica entre os diferentes setores da economia.
Varejo e Bebidas Apostam no Calor como Aliado
Para redes varejistas como Magazine Luiza e Assaí, o aumento das temperaturas representa uma oportunidade concreta de incremento nas vendas. O vice-presidente de operações da Magazine Luiza destacou que produtos de climatização, como ar-condicionado e ventiladores, além de itens de refrigeração, são diretamente impulsionados pelas ondas de calor.
O calor faz muita diferença para nós. A linha de ar-condicionado e ventilação vende muito e mexe muito o ponteiro, assim como a categoria de refrigeração, que é a que vende mais na companhia.
A associação do setor de climatização projeta que o faturamento do segmento alcance R$ 55,62 bilhões no ano corrente, representando um crescimento de 10% em relação ao ano anterior, em parte motivado pela antecipação de estoques por fabricantes e varejistas.
No segmento de bebidas, a Ambev utilizou os dados do El Niño de 2024 para embasar suas projeções futuras. A empresa registrou receita líquida de cerveja no Brasil de R$ 40,22 bilhões naquele ano, alta de 3,2% frente a 2023. Projeções indicam que esse número pode chegar a R$ 43,4 bilhões em 2026, também impulsionado pelo ciclo da Copa do Mundo.
O Assaí, por sua vez, avalia que a possível volatilidade nos preços de commodities gerada pelo fenômeno pode abrir espaço para repasse de preços e impacto positivo no faturamento da rede.
Agronegócio, Logística e Seguros Enfrentam Cenário Adverso
Para setores como agronegócio, transporte e seguros, o panorama é bem menos favorável. Companhias como SLC Agrícola, Minerva, Klabin, Rumo, Banco do Brasil e Caixa Seguridade mencionaram riscos operacionais associados ao fenômeno.
Segundo especialistas do setor financeiro, o agronegócio tende a ser o mais afetado, com efeitos em cascata para outros segmentos. A seca histórica associada ao El Niño no Centro-Oeste compromete as safras, o que eleva a inadimplência no crédito rural e reduz o volume de cargas a serem transportadas por ferrovias e hidrovias.
A SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de soja, milho e algodão do país, costuma registrar queda média de 7% na produtividade da soja durante anos de El Niño, com recuo de aproximadamente 10% no algodão de segunda safra. Em 2016, quando o fenômeno foi particularmente intenso, a empresa chegou a registrar quebra de safra de 15%. Para o ciclo atual, a companhia adotou medidas como cobertura de solo para retenção de umidade e antecipação do plantio de algodão na Bahia.
A Minerva, do setor de agropecuária, também enfrenta pressões: a seca nas regiões pecuárias pode atrasar a recomposição dos rebanhos e encarecer o custo do gado, com impactos que se estendem aos frigoríficos.
Na área de transportes, a Rumo alertou que o El Niño afeta diferentes pontas de sua malha operacional, do sistema Norte ao Sul, com potencial redução nos volumes de grãos transportados.
Setor Financeiro Reforça Provisões e Monitoramento
O Banco do Brasil, com forte exposição ao crédito rural, afirmou ter mobilizado cerca de 280 profissionais de ciências agrárias para monitoramento das lavouras em tempo real. A instituição também está incentivando produtores a contratarem múltiplas coberturas de seguro e a investirem em irrigação em regiões com maior risco de seca.
O banco declarou ter incorporado o cenário do El Niño ao cálculo de sua Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) referente ao próximo ano. O braço BB Seguridade também recorre a contratos de excesso de danos para proteger suas carteiras, além de manter diálogo com o governo federal sobre a criação de fundos de catástrofe.
Setor Elétrico Divide-se Entre Oportunidades e Prevenção
As empresas de energia elétrica ocupam uma posição intermediária no debate sobre os efeitos do El Niño. Enquanto companhias como Copel e Auren identificam oportunidades — com reservatórios mais cheios na região Sul e aumento da demanda no Sudeste e Centro-Oeste provocado pelo calor —, distribuidoras como Energisa, Cemig e Axia já implementam planos de manutenção preventiva para reduzir riscos de apagões e danos à infraestrutura elétrica.
Analistas ressaltam que, dado o tamanho continental do Brasil, cada região é afetada de maneira distinta pelo fenômeno. Geradoras com reservatórios no Sul tendem a se beneficiar das chuvas, enquanto aquelas localizadas no Norte e Nordeste podem sofrer com a redução no volume hídrico.