A América Latina na mira de Washington

Desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, no início de 2025, a América Latina voltou a ocupar posição central na agenda de política externa americana. A região, que por décadas recebeu atenção intermitente de Washington, agora enfrenta uma pressão sistemática para se adequar aos interesses da Casa Branca — e a maioria dos países, em maior ou menor grau, tem cedido.

As estratégias utilizadas por Trump variam consideravelmente: pressão econômica sobre adversários, apoio financeiro a aliados e, em casos extremos, o uso da força militar. Em janeiro de 2025, a Venezuela se tornou o primeiro país sul-americano a sofrer uma ação militar direta dos Estados Unidos, marcando uma escalada sem precedentes recentes na região.

A Doutrina Monroe ressurge como diretriz oficial

A publicação da Estratégia de Segurança Nacional, em novembro do ano passado, deixou claro o arcabouço ideológico que orienta a política externa americana para o continente. O documento reafirma a chamada Doutrina Monroe — princípio do século 19 que defende a supremacia americana no hemisfério ocidental — como guia das relações dos EUA com os países latino-americanos.

Para especialistas, esse movimento não é inteiramente novo. Juan Gabriel Tokatlian, professor de relações internacionais da Universidade Torcuato Di Tella, na Argentina, explica que o interesse renovado dos EUA na região é, em grande parte, uma resposta à crescente influência econômica e política da China na América Latina.

"Esse movimento levou à retirada gradual dos EUA dos principais conflitos em que estiveram envolvidos nos últimos anos, como os do Iraque e do Afeganistão", afirma Tokatlian.

Aliados por escolha e por pressão

Analistas distinguem dois grupos principais de países na região: aqueles que se alinham voluntariamente aos EUA e os que cedem sob coerção. Entre os primeiros, destacam-se nações cujos governos compartilham visões ideológicas próximas às de Trump:

  • Argentina, sob Javier Milei
  • Chile, com José Antonio Kast
  • Equador, governado por Daniel Noboa
  • Colômbia, com Abelardo de la Espriella
  • Peru, onde Keiko Fujimori tem crescente influência

Segundo Tokatlian, esses países cedem "por convite, não por imposição", motivados pela expectativa de obter recursos, assistência financeira ou outros benefícios. Um exemplo concreto foi o suporte financeiro americano à Argentina, que evitou uma crise cambial às vésperas das eleições legislativas de outubro.

No outro extremo, países como Venezuela e Cuba enfrentam sanções e pressões mais duras. Cuba, em especial, vive sua maior transformação econômica desde a revolução, impulsionada pela crise energética decorrente do bloqueio americano.

Casos intermediários: Brasil e México

O Brasil e o México ocupam uma posição mais ambígua nesse cenário. O México, apesar de sua dependência econômica dos EUA, entregou dezenas de líderes do narcotráfico às autoridades americanas e mobilizou milhares de soldados para sua fronteira norte desde o retorno de Trump ao poder.

Já o Brasil é apontado por analistas como o país com maior capacidade de resistir às pressões de Washington. Michael Shifter, pesquisador e ex-presidente do Inter-American Dialogue, destaca que essa postura não é exclusiva do governo atual: há, entre as elites brasileiras — inclusive em setores conservadores —, um sentimento de soberania que impõe limites naturais à subordinação aos Estados Unidos.

Até adversários históricos fazem concessões

Um dos casos mais emblemáticos dessa dinâmica é a Nicarágua. Mesmo com os ditadores Daniel Ortega e Rosario Murillo sendo conhecidos por seus discursos antiamericanos, o país mantém cooperação com os EUA no combate ao narcotráfico e aceita voos de deportação, posicionando-se como um "muro de contenção" na América Central.

"Se a Nicarágua combater o tráfico de drogas e aceitar deportados, os EUA ficarão satisfeitos. A democracia não está na agenda de Washington, e nada acontecerá com Ortega", avalia Tokatlian.

Para Shifter, Ortega percebe o caráter pragmático e transacional de Trump e tenta explorar essa característica em benefício próprio, sabendo que questões como direitos humanos têm baixo peso nas prioridades do governo americano.

Riscos de longo prazo para a influência americana

Apesar dos ganhos de curto prazo, analistas alertam para os riscos da abordagem de Trump. O histórico de intervencionismo americano já é visto com desconfiança em boa parte da região, e a continuidade das pressões pode alimentar um crescente ressentimento — tanto contra os EUA quanto contra governos locais percebidos como subservientes a Washington.

Pesquisas de opinião citadas por Shifter apontam para uma deterioração da imagem dos Estados Unidos e um avanço da percepção favorável à China, especialmente entre jovens. No Peru, essa mudança seria particularmente intensa entre pessoas de 18 a 35 anos.

"Não é porque todo mundo ama a China. É porque as pessoas não gostam dos EUA", resume Shifter.

O pesquisador também questiona se as ações de Trump constituem de fato uma nova Doutrina Monroe ou apenas uma tentativa de projeção de poder sem uma estratégia coerente de longo prazo. Para ele, iniciativas como os ataques a embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Caribe parecem mais voltadas a demonstrar dureza do que a resolver problemas estruturais.

Uma mudança duradoura?

Para Tokatlian, o interesse renovado dos EUA na América Latina veio para ficar, independentemente de quem ocupe a Casa Branca no futuro. Em sua avaliação, mesmo um eventual governo democrata dificilmente abriria mão das posições conquistadas na região, dado que a rivalidade com a China transcende alinhamentos partidários e se projeta em escala global.