Mercado Reage a Indicadores Americanos e Pressões Nacionais

Nesta sexta-feira, o dólar registrou alta enquanto a Bolsa de Valores apresentou queda, um movimento atribuído à repercussão de novos dados da economia dos Estados Unidos e a um ambiente de tensão no cenário doméstico brasileiro. Por volta das 10h57, a moeda norte-americana valorizava 0,54%, sendo cotada a R$ 5,221. No exterior, o índice DXY, que acompanha o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas, ampliou suas perdas após a divulgação dos dados de vendas no varejo dos EUA, recuando aproximadamente 0,44% no mesmo período.

As vendas varejistas nos Estados Unidos registraram uma queda de 0,6% em julho em comparação com o mês anterior, contrariando a expectativa de um aumento de 0,1% em pesquisa da Reuters. Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue, observou que, apesar da divulgação desses dados, a agenda econômica da sexta-feira era mais esvaziada. Ele explicou que, embora as vendas no varejo sejam um indicador importante do comportamento do consumo das famílias americanas, seu impacto nos mercados seria limitado, especialmente após uma semana focada em dados cruciais de inflação. Yamashita destacou que os números de inflação ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI) nos EUA, divulgados nos dias anteriores, alinharam-se às expectativas do mercado, reforçando a percepção de uma desaceleração gradual da pressão inflacionária.

Após a divulgação desses números, dados do FedWatch, do CME Group, indicaram um aumento nas apostas de manutenção da taxa de juros na faixa de 3,50% a 3,75%. Às 11h, 69,2% das apostas apontavam para a manutenção, enquanto 30,8% indicavam um aumento de 0,25 ponto percentual.

Ibovespa em Queda e Fatores de Pressão Interna

Às 11h08, o Ibovespa registrava uma queda de 0,94%. Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, apontou que essa movimentação foi fortemente influenciada por um cenário doméstico tenso, que acabou ofuscando o alívio provocado pelos dados de inflação nos EUA. Segundo Araújo, enquanto o mercado externo respirava com o adiamento das expectativas de alta de juros pelo Federal Reserve (Fed) para dezembro, o Brasil enfrentava uma combinação desfavorável de risco fiscal agravado por promessas de campanha, tensões geopolíticas relacionadas à Lei da Reciprocidade contra os EUA, e uma sequência de oito quedas consecutivas do índice.

No pregão anterior, o dólar havia fechado em alta de 0,27%, a R$ 5,191, e a Bolsa encerrou o dia em baixa de 0,23%, atingindo 167.100 pontos, o menor nível desde 20 de janeiro. O pregão foi marcado pela saída de investidores estrangeiros do Brasil, um movimento que tem se intensificado em agosto e pressionado os ativos domésticos. Até o dia 11, o saldo de agosto estava negativo em R$ 11,9 bilhões, configurando o segundo pior saldo do ano, atrás apenas de maio. Contudo, no acumulado de 2026, o saldo permanece positivo em R$ 29,1 bilhões.

Preocupações Fiscais e Juros Elevados

O cenário eleitoral e as preocupações fiscais também exercem pressão sobre os ativos brasileiros. Esses fatores foram mencionados pelo banco JPMorgan ao reduzir a recomendação para as ações brasileiras de 'overweight' (acima da média) para 'neutra'. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, comentou que o rebaixamento do Brasil pelo JPMorgan contribuiu para sensibilizar o investidor estrangeiro, que antes parecia menos atento a essa questão, enquanto o investidor local já demonstrava maior preocupação com a eleição, a dinâmica da dívida bruta e o crescimento real das despesas.

A perspectiva de juros elevados por um período mais longo também impacta o mercado, em meio às incertezas ligadas ao conflito no Irã. Uma taxa Selic alta favorece os investimentos de renda fixa, diminuindo a atratividade da Bolsa. O conflito também impulsiona a busca por ativos considerados mais seguros, como o dólar. Por volta das 11h05, o barril do petróleo Brent era negociado a US$ 87, com alta de 0,25%, enquanto investidores aguardavam novos desdobramentos sobre as negociações entre EUA e Irã e a situação no estreito de Ormuz.

Yamashita observou que os mercados se encaminhavam para encerrar a semana próximos das máximas históricas, ainda monitorando pontos de atenção como os debates em torno do setor de inteligência artificial. Em agosto, o segmento de semicondutores demonstrou recuperação após um julho mais desafiador. As bolsas americanas apresentaram direções mistas, com o S&P 500 subindo 0,02%, o Dow Jones recuando 0,08% e o Nasdaq registrando alta de 0,08%.

No mercado doméstico, o pregão da véspera ainda foi influenciado pela divulgação de dados do IBGE, que informaram que o setor varejista brasileiro encerrou o segundo trimestre com um aumento nas vendas em junho acima do esperado. O avanço de 0,5% em comparação com maio acelerou o ritmo em relação ao mês anterior, indicando uma certa resiliência do consumo, mesmo diante do cenário de juros elevados. André Valério, economista sênior do Inter, ressaltou que, apesar do avanço, o resultado de junho reforça sinais de moderação da atividade. Ele explicou que o desempenho de junho foi impulsionado principalmente por supermercados, um consumo essencial. No acumulado do ano, grande parte do crescimento provém de combustíveis, farmacêuticos e supermercados, enquanto o varejo ampliado, mais sensível ao crédito, mostra sinais de perda de dinamismo.