Cenário de crédito em declínio
O mercado de crédito no Brasil enfrenta um momento desafiador, com projeções de que a situação não deve melhorar no curto prazo. Economistas, analistas e os próprios bancos privados apontam para juros mais altos do que o esperado e um endividamento elevado das famílias como fatores que contribuem para essa perspectiva.
Milton Maluhy, presidente do Itaú Unibanco, destacou que o ciclo de crédito será exigente e que há um excesso de crédito no mercado. Ele indicou que o banco prioriza a gestão de riscos em detrimento do crescimento da participação de mercado, visando evitar problemas futuros com a inadimplência. De forma similar, Marcelo Noronha, do Bradesco, afirmou que a instituição está adotando cautela, reduzindo o crédito pessoal e focando em modalidades com garantia.
Aumento das provisões para perdas
A preocupação dos executivos reflete-se diretamente nas provisões que os três maiores bancos privados – Itaú Unibanco, Bradesco e Santander – fizeram para cobrir possíveis perdas com calotes. No segundo trimestre, o montante combinado provisionado por essas instituições atingiu R$ 28,7 bilhões, um aumento de 12,4% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Esse valor supera o crescimento da carteira de crédito, que foi de 9,4%, alcançando R$ 3,37 trilhões.
Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, observa que o setor bancário atravessa um período difícil, com a inflação corroendo a renda familiar e os juros altos impactando a capacidade de financiamento das empresas.
Pico da inadimplência e endividamento familiar
A inadimplência geral no sistema financeiro atingiu seu maior nível histórico em maio, marcando 4,74% do total de crédito concedido com atraso superior a 90 dias. Embora tenha havido uma leve redução para 4,68% em junho, após o lançamento do Desenrola 2.0, o índice permanece significativamente acima da média histórica de 3,29%.
Flávio Ataliba, pesquisador do FGV IBRE, explica que esse percentual é resultado não apenas da taxa Selic em 14%, mas também da precificação de juros futuros elevados, influenciados pela percepção de risco fiscal no Brasil. Essa situação eleva o custo do dinheiro. A expectativa inicial de queda da Selic para 12% no início do ano foi revisada, e agora se espera apenas uma redução marginal para 13,75%.
Adicionalmente, a inflação dos alimentos tem um impacto desproporcional em famílias de baixa renda, comprometendo mais de 23% do orçamento de quem ganha até um salário mínimo. O endividamento das famílias em relação à renda atingiu 49,93% em janeiro, um pico desde 2005, mantendo-se próximo desse patamar até maio.
Perspectivas e estratégias dos bancos
Apesar de o desemprego estar em patamares baixos, a expectativa é de desaceleração econômica devido aos juros altos. Ataliba prevê que a inadimplência deve piorar ou, no mínimo, estabilizar no segundo semestre, dada a lenta transmissão da Selic para o consumidor final.
Para Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, fatores externos como o fim de conflitos geopolíticos e um El Niño menos intenso poderiam abrir espaço para novas reduções da Selic. No entanto, ele enfatiza que a questão fiscal é crucial para discutir juros estruturalmente mais baixos e um ciclo sustentável de cortes.
Diante desse cenário, os bancos estão adotando uma postura mais cautelosa, restringindo o crédito para consumidores de baixa renda e priorizando empréstimos com garantia. As ofertas se concentram em crédito consignado CLT, financiamento imobiliário e de veículos com garantia, além de linhas com garantias governamentais (FGI e FGO) para pequenas e médias empresas.
O Santander, por exemplo, teve um desempenho abaixo do esperado no segundo trimestre, com o lucro impactado por maiores gastos com provisões. Analistas da XP observam que a carteira de crédito do Santander está estagnada, e a normalização dos custos de crédito pode levar alguns trimestres. Mesmo o Itaú, com o menor índice de inadimplência entre os pares, registrou uma deterioração e revisou para baixo suas projeções de receita com serviços e seguros para 2026.
O Bradesco, apesar de elevar a porcentagem de créditos com garantia, ainda enfrenta preocupações com empréstimos ao varejo, com o custo de crédito para esses clientes aumentando. O Citi questiona se o ritmo de crescimento das receitas e os ganhos de eficiência conseguirão superar os custos de crédito crescentes. No entanto, os executivos do Bradesco mantêm suas previsões de resultado para o ano, esperando uma desaceleração gradual nas concessões de crédito no segundo semestre.