Nova Aliança de Defesa no Oriente Médio
Arábia Saudita, Paquistão e Turquia formalizaram um pacto de defesa mútua em 7 de junho, um movimento que pode alterar significativamente a dinâmica geopolítica do Oriente Médio e do Sul da Ásia. Este acordo surge em um período de crescente tensão regional, com o Irã retaliando contra ações lideradas pelos Estados Unidos e Israel, utilizando drones e mísseis balísticos contra aliados americanos. A Arábia Saudita, por sua vez, enfrenta ameaças de grupos apoiados por Teerã, como os rebeldes houthis no Iêmen e facções islâmicas no Iraque. Recentemente, um ataque houthi resultou na morte de dezenas de soldados da coalizão apoiada por Riad no Iêmen. As autoridades sauditas acusam a Guarda Revolucionária Iraniana de coordenar esses ataques, alegando que isso rompe a paz mediada pela China em 2023.
Detalhes e Simbolismo do Acordo
Os termos exatos do acordo tríplice ainda são limitados, mas o pacto carrega um forte simbolismo em uma região marcada por conflitos desde o ataque do Hamas a Israel em 2023. A assinatura ocorreu em Meca, a cidade mais sagrada do Islã, envolvendo três nações muçulmanas de distintas origens étnicas, mas majoritariamente sunitas – o ramo predominante da religião, em contraste com o xiismo, centralizado no Irã. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e o chefe do Exército, Asim Munir, realizaram uma peregrinação religiosa em Meca antes da chegada do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e foram recebidos pelo príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman.
Implicações Militares e Geopolíticas
Do ponto de vista militar, o acordo une a Arábia Saudita, que possui o sétimo maior orçamento de defesa global, ao Paquistão, detentor de cerca de 170 ogivas nucleares, e à Turquia, uma nação fortemente armada com 355 mil soldados, sendo o segundo maior contingente da OTAN. Em 2023, sauditas e paquistaneses já haviam assinado um pacto de defesa mútua que, na prática, conferiu ao reino saudita um status de potência nuclear indireta na região, onde Israel é o único outro país com armamento nuclear não declarado. O Paquistão já havia posicionado 8.000 soldados e um esquadrão de caças em território saudita, atuando como mediador na crise com o Irã.
Os três países já mantinham laços na área de defesa. O Paquistão, com sua experiência em conflitos com a Índia, tem prestado assistência à Arábia Saudita por décadas e adquire material militar turco, assim como Riad. A extensão do componente nuclear no novo arranjo, contudo, permanece incerta.
Impacto nas Relações Internacionais
Este anúncio pode representar um revés para Donald Trump, que tem pressionado Riad para normalizar relações com Israel através dos Acordos de Abraão. Recentemente, Trump condicionou a transferência de tecnologia nuclear civil para a Arábia Saudita a um acordo de paz com o Estado judeu. Turquia e Paquistão são abertamente críticos a Israel, e o pacto reforça uma postura conjunta distante dos objetivos dos acordos de Trump. O Paquistão já havia se afastado da influência de Washington após a “guerra ao terror”, aproximando-se da China. A Turquia, apesar de uma relação turbulenta, está em processo de reaproximação com Trump.
Para Erdogan, o pacto é uma vitória política, expandindo sua influência geopolítica. Em 2024, a Turquia apoiou o Azerbaijão em sua vitória sobre a Armênia em Nagorno-Karabakh e foi um fator chave na queda do regime de Bashar al-Assad na Síria. A ascensão de um governo islâmico na Síria alarmou Israel, que reforçou sua posição militar na região, confrontando os interesses turcos e, indiretamente, russos, que eram fiadores de Assad, mas tiveram sua capacidade de intervenção diminuída pela guerra na Ucrânia.