Luta por Justiça e Memória
Nesta segunda-feira (17), familiares, amigos e diversas entidades se reuniram em uma missa no Santuário do Senhor do Bonfim, em Salvador, Bahia, para relembrar o terceiro aniversário da morte de Mãe Bernadete. O evento serviu para renovar o clamor por justiça em relação ao assassinato da líder quilombola, que foi brutalmente morta com 25 tiros, muitos deles no rosto, dentro de sua casa na comunidade de Pitanga dos Palmares, em Simões Filho (BA).
O legado de Mãe Bernadete continua a inspirar e mobilizar sua família. Wellington Pacífico, neto da ativista, com 25 anos, expressa seu compromisso em manter viva a memória da avó e transformar a dor do luto em uma força para a luta. Atualmente, ele integra o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) e iniciou um curso de direito em uma universidade baiana, com o objetivo de defender sua família e as comunidades quilombolas do estado.
Desenvolvimento do Caso e Próximos Passos
Wellington informou que os indivíduos acusados pela morte de Mãe Bernadete estão detidos. Em abril, dois dos acusados foram julgados: Arielson da Conceição dos Santos, apontado como o autor dos disparos, foi sentenciado a mais de 40 anos de prisão, enquanto Marílio dos Santos, descrito como um dos envolvidos no planejamento do crime, recebeu uma pena de 29 anos e 9 meses. A família projeta que o julgamento dos outros três acusados ocorra em outubro, embora o Tribunal de Justiça da Bahia ainda não tenha confirmado a data.
Preservando o Trabalho de Base
Além da busca por justiça, a família de Mãe Bernadete está empenhada em dar continuidade ao trabalho comunitário que ela realizava. Jurandir Pacífico, filho da líder, planeja organizar um novo festival de cultura e arte quilombola e busca parcerias para prosseguir com projetos como festivais, cursos de artesanato e cozinhas solidárias.
A mobilização em torno do caso conta também com o apoio da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), que exige a responsabilização dos culpados e a implementação de medidas eficazes para garantir a segurança de líderes quilombolas. A entidade ressalta que a morte de Mãe Bernadete é um doloroso lembrete da vulnerabilidade dos defensores de direitos humanos, e que sua memória permanece viva nas comunidades quilombolas.
Mulheres negras defensoras de direitos humanos enfrentam racismo, violência doméstica e outras violações.
Valdecir Nascimento, historiadora e fundadora do Odara - Instituto da Mulher Negra, destaca que mulheres negras que atuam na defesa de direitos humanos frequentemente enfrentam racismo, violência doméstica e outras formas de violação. Dados da Conaq, citados na reportagem, indicam que, entre 2016 e 2024, pelo menos 22 mulheres foram assassinadas, e outras 33 foram alvo de ameaças entre 2021 e 2023. A Conaq também aponta que apenas 12,6% dos mais de um milhão de quilombolas no Brasil vivem em territórios demarcados.