Reação de Tiffany Abreu à nova política da CBV
Tiffany Abreu, oposta do Osasco, pronunciou-se publicamente pela primeira vez após a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) anunciar a adesão à política do Comitê Olímpico Internacional (COI) que impõe restrições à participação de mulheres trans em competições femininas. A atleta, que atualmente disputa o Campeonato Paulista, considerou a medida uma ameaça à sua carreira e um retrocesso para o esporte.
Aos 41 anos, Tiffany, que está em sua provável última temporada antes da aposentadoria, expressou seu descontentamento. "O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos. São 10 anos no voleibol feminino. Não comecei ontem", declarou a jogadora.
Impacto além da atleta individual
A jogadora ressaltou que a decisão não afeta apenas sua trajetória pessoal, mas tem um alcance mais amplo. "Isso não afeta somente a mim. Afeta meu clube, a torcida, patrocinadores, as pessoas que se inspiram em mim, o direito de todas as pessoas trans", complementou, destacando as implicações para a comunidade trans e para todos os envolvidos com o esporte.
Novas regras da CBV e comparações históricas
A CBV comunicou, na sexta-feira (14), que aplicará, em competições nacionais de quadra e praia, a política de elegibilidade do COI para a categoria feminina. As novas diretrizes exigirão que atletas apresentem um teste genético com resultado negativo para o gene SRY, associado ao desenvolvimento masculino. Estes critérios serão válidos a partir da Superliga A e B 2026/27, Supercopa 2026, Copa Brasil 2027, Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia 2027 e CBVP Challenger 2027. Atletas que não cumprirem a elegibilidade serão impedidas de competir.
Tiffany classificou a medida como um "enorme retrocesso", comparando-a a práticas antigas e consideradas vexatórias de verificação de sexo em atletas. "Voltamos para uma forma vexatória, como se testavam as atletas nos anos 60 e 70. Estamos em 2026. Não podemos ter esse retrocesso jamais", afirmou.
Apoio e luta por inclusão
Apesar das novas regras da CBV, Tiffany segue liberada para o Campeonato Paulista, pois a Federação Paulista de Voleibol informou que o torneio começou antes da nova determinação da CBV, seguindo as regras anteriores. Durante a estreia do Osasco, a jogadora recebeu apoio da torcida, que manifestou seu suporte com gritos e cartazes.
A trajetória de Tiffany é considerada pioneira no Brasil. Após atuar em clubes nacionais e internacionais, ela concluiu sua transição de gênero e obteve autorização da Federação Internacional de Voleibol em 2017 para competir em categorias femininas. No mesmo ano, tornou-se a primeira mulher trans a jogar uma partida da Superliga Feminina. Pelo Osasco, conquistou títulos importantes, como a Superliga, Copa Brasil e Campeonato Paulista na temporada 2024/25, tornando-se a primeira atleta trans campeã da Superliga Feminina.
Ao final de seu pronunciamento, Tiffany reafirmou sua intenção de não aceitar a decisão passivamente. "Não vou me calar. E vou tomar todas as medidas possíveis para que minha luta pelo direito, visibilidade, inclusão e prática do esporte não tenham sido em vão. Meus 10 anos não foram em vão e vou lutar por eles e por todos vocês", prometeu.