Sala de aula a céu aberto no coração do Cerrado

Por alguns dias, cadernos e quadros negros cedem lugar a árvores, trilhas e animais silvestres. No Parque Três Meninas, localizado em Samambaia, no Distrito Federal, estudantes da rede pública vivenciam uma experiência de aprendizado fora das paredes da escola, inseridos diretamente no bioma Cerrado.

A iniciativa integra o projeto Com Cultura e Com Afeto – Arte e Conscientização, que tem como meta receber cerca de dois mil alunos até o final de agosto. As turmas são provenientes de escolas de Samambaia, Ceilândia, Taguatinga e regiões vizinhas.

O que as crianças vivenciam durante as visitas

Durante o passeio, os estudantes percorrem o parque com o apoio de monitores, conhecem a história do local e debatem temas como preservação ambiental, fauna do Cerrado, coleta seletiva e reciclagem. A programação também contempla um espetáculo de teatro de bonecos chamado Papo de Lixo, além de lanche e distribuição de materiais educativos reutilizáveis.

Sara Martins Pereira, de 9 anos, aluna do 4º ano de uma escola de Ceilândia, resumiu a visita com entusiasmo:

Aprendi que tem que cuidar do meio ambiente e também que a gente tem que cuidar dos animais.

Sua colega Mariana Gomes Fernandes, também de 9 anos, destacou o valor de aprender em contato com a natureza. Para ela, a reciclagem foi um dos principais aprendizados que pretende aplicar em casa.

Da teoria à prática: a perspectiva dos professores

Para os educadores que acompanham os alunos diariamente, a saída de campo representa uma oportunidade de dar concretude ao que já foi ensinado em sala. A professora Larissa Carvalho observou que, ao longo da visita, as crianças reconheciam espontaneamente elementos da vegetação e da fauna que haviam estudado anteriormente em livros e vídeos.

A escola é um espaço em que a gente trabalha basicamente tudo que fala sobre conteúdo, mas aqui a gente vê na prática.

Segundo a professora, a experiência já despertou ideias para novos projetos em sala de aula, incluindo a possibilidade de desenvolver uma iniciativa voltada à conservação ambiental. Ela acredita que o contato direto com o Cerrado — o bioma onde os próprios alunos vivem — é especialmente significativo para despertar o senso de responsabilidade ambiental.

Monitores aprendem tanto quanto ensinam

Os monitores do projeto passaram por duas semanas de formação prévia, com conteúdos sobre recreação, educação ambiental, características do Cerrado e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). No entanto, ao receber as turmas, alguns foram surpreendidos pelo nível de conhecimento dos estudantes.

Ana Clara das Neves, monitora de 24 anos, relatou que esperava transmitir muito conhecimento às crianças, mas acabou vivenciando uma troca genuína:

As crianças já vêm super preparadas. Foi mais uma troca realmente. Elas contribuíram demais pelo processo.

Segundo o idealizador do projeto, Alan Mariano, os monitores foram selecionados por terem vínculos com a região e afinidade com temas como educação ambiental e recreação. Jovens de Samambaia e áreas próximas foram priorizados, reforçando o caráter comunitário da iniciativa.

Quando o lixo vira personagem de teatro

Para aproximar o tema ambiental do universo infantil, o espetáculo Papo de Lixo utiliza bonecos para abordar o descarte correto de resíduos, a reciclagem e o papel dos trabalhadores de limpeza urbana. A proposta é transmitir informações relevantes de forma lúdica e envolvente.

De acordo com Maria Clara Abreu, integrante do projeto, a reação das crianças é imediata: elas se conectam com os personagens e, após a apresentação, manifestam a intenção de separar o lixo também em casa.

Alguns alunos chegaram ao parque com experiências prévias relacionadas ao tema. Augusto Rosa, de 9 anos, contou que participou da criação de um jogo digital sobre reciclagem em um projeto de programação. Durante a visita, ele encontrou novas referências para o que já estudava e comemorou a possibilidade de aprender enquanto brincava.

Materiais educativos e mudas de árvores nativas

Além das atividades realizadas no parque, cada estudante recebe uma ecobag, um ecocopo reutilizável e uma cartilha didática com conteúdos sobre o Parque Três Meninas, o Cerrado e a coleta seletiva. O material foi elaborado para que professores possam dar continuidade ao tema em sala de aula após a visita.

Ao final das atividades, cada escola participante também recebe uma muda de árvore nativa para plantio coletivo — uma forma simbólica de transformar o contato temporário com o parque em um compromisso mais duradouro com o meio ambiente.

Terceira edição reforça vínculo entre comunidade e espaço público

Em sua terceira edição, o projeto Com Cultura e Com Afeto busca aproximar os estudantes dos espaços públicos e do patrimônio ambiental da região. Para Alan Mariano, conhecer o parque também significa reconhecer que aquele espaço pertence à comunidade.

A intenção central é que as crianças passem a enxergar o Cerrado não apenas como conteúdo dos livros didáticos, mas como o ambiente em que vivem e pelo qual são corresponsáveis. As atividades seguem até o dia 28 de agosto e são destinadas exclusivamente às escolas públicas participantes.