Inversão no Ranking de Gastos Militares

O programa nuclear da Marinha do Brasil registrou um aumento expressivo de recursos em 2025, recebendo 4,5 vezes mais verbas do que no ano anterior. Com isso, alcançou pela primeira vez na história recente a liderança no ranking de investimentos militares brasileiros, empatando em gastos com o sistema de controle do tráfego aéreo — atividade que também atende demandas civis.

Os valores destinados ao programa nuclear atingiram R$ 1,4 bilhão em valores corrigidos, ante R$ 311 milhões em 2024. Em contrapartida, o programa do caça sueco Gripen, que dominava o topo da lista desde 2016, caiu para a quarta posição, recebendo R$ 965 milhões — bem abaixo dos R$ 1,6 bilhão do ano anterior.

Atrasos no Programa do Gripen

O contrato para a aquisição dos caças Gripen foi firmado em 2014, com a previsão original de que todos os 36 aviões — incluindo 15 a serem fabricados no Brasil — estivessem em operação até 2024. Até o momento, apenas 11 unidades foram entregues, e a expectativa atual é que a última chegue ao país somente em 2032. O governo brasileiro anunciou ainda negociações para a compra de mais 20 aeronaves, embora a origem dos recursos para esse novo contrato ainda não esteja definida.

Submarino Nuclear: O Álvaro Alberto

Os recursos destinados ao programa nuclear da Marinha estão diretamente ligados à construção do primeiro submarino nuclear brasileiro, batizado de Álvaro Alberto. Segundo a Marinha, os investimentos foram aplicados no aperfeiçoamento do domínio do ciclo do combustível nuclear, na implantação do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica e no desenvolvimento do reator que será integrado à embarcação.

A maior parte da verba, cerca de R$ 953 milhões, foi repassada a empresas contratadas para os projetos, majoritariamente para serviços de engenharia. A etapa mais complexa — a integração do reator ao casco do submarino — ainda não foi iniciada.

O projeto do submarino nuclear em si consumiu R$ 649 milhões em uma rubrica separada, ocupando o sétimo lugar no ranking de gastos militares. Obras em estaleiros apareceram logo atrás, com R$ 582 milhões.

Uma História de Décadas

O programa nuclear da Marinha existe desde 1979, com avanços e recuos ao longo das décadas. Entre as conquistas, destaca-se o desenvolvimento de ultracentrífugas para enriquecimento de urânio, o que gerou um impasse com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em 2004, em torno das condições de inspeção das instalações brasileiras.

Durante o período da ditadura militar, o programa fazia parte de um esforço mais amplo que incluía a possibilidade de desenvolvimento de armamento nuclear. O Brasil chegou a avançar nessa direção, mas renunciou oficialmente à intenção em 1990 e aderiu ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) em 1998.

Posição do Governo Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou simpatia pelo fortalecimento das capacidades militares do país. Em discurso proferido em julho, durante visita à indústria bélica Avibrás, afirmou que o Brasil precisava se armar diante das incertezas do cenário internacional, fazendo referência às ações militares do governo americano sob Donald Trump. Lula também criticou o fato de o Brasil ter aderido ao TNP enquanto potências nucleares estabelecidas não reduziram seus arsenais e novos países ingressaram no chamado clube nuclear.

Nesta semana, o presidente visitou a sede do programa nuclear da Marinha, em Iperó, no interior de São Paulo, reafirmando apoio à priorização do submarino nuclear.

Obstáculos Políticos e Técnicos

Além dos desafios técnicos, o programa enfrenta dificuldades no âmbito internacional. Para que o Álvaro Alberto possa operar, o uso de seu combustível nuclear precisará ser aprovado pela AIEA, que ainda negocia os termos com o Brasil. A preocupação da agência, sediada em Viena, é com o risco de proliferação de material atômico.

Militares brasileiros, em conversas reservadas, apontam que há pressão política por parte das potências nucleares e que a AIEA deseja que o Brasil adira aos chamados Protocolos Adicionais ao TNP, os quais permitem um nível de inspeção muito mais rigoroso do que o atualmente praticado.

Com todos esses entraves, o Álvaro Alberto só deverá estar operacional em 2038 — 13 anos além do prazo original previsto no projeto.

Panorama Geral dos Gastos Militares

No conjunto, o Brasil mantém uma taxa relativamente baixa de investimento militar, equivalente a 8,25% do total de R$ 133,3 bilhões gastos em 2025. A maior parte dos recursos, 77,7%, é destinada a despesas com pessoal, enquanto 14,05% cobrem custos operacionais.

Os dados foram apurados com base na execução orçamentária em valores corrigidos pelo IPCA até julho, extraídos do Siga Brasil, plataforma de acompanhamento de gastos federais do Senado.

O Caso das Fragatas Tamandaré

O maior programa militar em andamento no país — o das fragatas Tamandaré — não integra o ranking analisado. Isso ocorre porque o projeto é financiado por meio de uma estatal da Marinha, a Emgepron, capitalizada nos últimos dias do governo Michel Temer para viabilizar os contratos fora do então teto de gastos. Até o ano passado, o programa havia consumido R$ 9,6 bilhões, com três navios já concluídos. Em 2025, outros R$ 2,4 bilhões foram alocados, mas esses valores constam na conta das despesas de estatais, e não do Ministério da Defesa.

O Tribunal de Contas da União (TCU) questionou a manobra, que acabou sendo aprovada. O governo de Jair Bolsonaro tentou replicar o modelo em outras áreas, sem sucesso.