O Início de Uma Era: 'O Concreto Já Rachou'
Há quatro décadas, o lançamento do álbum 'O Concreto Já Rachou' pela banda Plebe Rude, em fevereiro de 1986, solidificou a presença do punk brasiliense no cenário musical brasileiro. O disco, que trazia o icônico verso 'Rachou... o concreto já rachou!' da canção 'Brasília', encapsulava a energia e o descontentamento de uma geração. Produzido pela EMI-Odeon, o trabalho não apenas introduziu um rock mais contundente nas rádios, mas também colocou a capital federal no epicentro da segunda onda do rock nacional.
A jornada para a gravação do álbum foi desafiadora. Inicialmente, a gravadora propôs um mini-LP com apenas seis faixas. Philippe Seabra, vocalista e guitarrista da banda, expressou a insatisfação com a limitação, argumentando que a Plebe Rude já possuía um vasto repertório acumulado em cinco anos de estrada. Com a intervenção de Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, que atuou como produtor, e o apoio de integrantes da Legião Urbana, a banda conseguiu incluir uma sétima faixa, a emblemática 'Brasília', que acabou dando nome ao álbum. O disco final, com pouco mais de 20 minutos, incluía canções que se tornariam clássicos, como 'Até Quando Esperar', 'Minha Renda' e 'Proteção', mantendo a essência do punk de Brasília e conquistando espaço na indústria fonográfica.
Da Cena Punk de Brasília aos Palcos Nacionais
Fundada em 1981 por Philippe Seabra e André X, ao lado de Jander 'Ameba' Bilaphra e Gutje Woortmann, a Plebe Rude emergiu da mesma efervescente cena que revelou nomes como Aborto Elétrico, Legião Urbana e Capital Inicial. Brasília, naquele período, era um caldeirão cultural onde a 'Turma da Colina' criava músicas que mesclavam influências do punk e do rock com reflexões sobre o contexto político e social do Brasil.
Com o lançamento de 'O Concreto Já Rachou', a Plebe Rude transcendeu as fronteiras da capital, alcançando rádios, programas de televisão e palcos renomados como o Circo Voador e o Parque Lage, no Rio de Janeiro. A banda, contudo, mantinha uma relação ambígua com o sucesso comercial. A canção 'Minha Renda', por exemplo, satirizava a mercantilização do artista, abordando a ironia de vender a própria identidade para alcançar a fama, chegando a citar Herbert Vianna em uma provocação que ganhou um novo significado após sua atuação na produção do álbum.
Autonomia Artística e a Parceria com Herbert Vianna
André X, baixista e cofundador da Plebe Rude, ressalta a importância de Herbert Vianna para a concretização do álbum. Naquela época, havia poucos produtores especializados em rock no Brasil, e Vianna, já consolidado com os Paralamas do Sucesso, conhecia profundamente a cena de Brasília. Apesar da colaboração, a banda坚持 manter sua autonomia artística. As discussões com a EMI eram constantes, especialmente em relação ao número de faixas e às decisões de produção, garantindo que o álbum preservasse a identidade crua e política do grupo.
Um Clássico que Resiste ao Tempo
Quatro décadas depois, 'O Concreto Já Rachou' continua sendo um marco fundamental na trajetória da Plebe Rude. Após um período fora de catálogo, o álbum foi relançado em CD, streaming e, mais recentemente, em uma edição de luxo em LP de vinil branco, acompanhada de um disco extra com demos de 'Proteção', 'Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)', 'Sexo e Karatê' e 'Minha Renda'. Esta nova edição resgata registros de uma fase crucial na construção da identidade da banda, incluindo participações de Ana XYZ e Marta Detefon em 'Sexo e Karatê'.
“Ficou primoroso. Você tem que respeitar os clássicos, né?” — Philippe Seabra
O relançamento, segundo Philippe Seabra, é uma forma de honrar a importância do álbum como um clássico. A história de Philippe e da banda também está documentada no livro 'O Cara da Plebe', lançado em 2025 pela Editora Belas Letras, com 640 páginas que detalham a trajetória desde a adolescência.
A Continuidade de Uma História
A formação da Plebe Rude passou por diversas mudanças ao longo das décadas, incluindo uma pausa entre 1994 e 1999. Atualmente, a banda é composta por Philippe Seabra, André X, Marcelo Capucci e Clemente Nascimento, este último uma figura histórica do punk brasileiro e integrante dos Inocentes. A entrada de Clemente em 2002 estreitou ainda mais os laços entre as duas bandas, que já compartilhavam uma história no cenário punk. Marcelo Capucci, por sua vez, acompanhou o início da cena de Brasília ainda jovem, antes de se tornar o baterista da banda.
A trajetória da Plebe Rude se entrelaça com a geração que transformou o rock nacional em um fenômeno de massa nos anos 1980. Philippe Seabra recorda o período em que bandas como Plebe Rude, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, Blitz e RPM dominavam as rádios, marcando uma nova fase da música brasileira. Quarenta anos depois, 'O Concreto Já Rachou' permanece como um testemunho daquele tempo e da persistência de uma banda que, nascida no punk de Brasília, superou os desafios da indústria fonográfica para alcançar seu público.