A Descoberta Inesperada
A recente notícia do suicídio de uma adolescente de 13 anos, transmitido ao vivo no Discord, ressoou profundamente em um pai que já havia enfrentado uma situação semelhante com sua própria filha. Paulo Zsa Zsa, pseudônimo de um pai solo, cuja história é detalhada em seu livro “Aconteceu com minha filha” (Geração Editorial, 2025), revelou que sua filha, na mesma faixa etária da vítima, esteve envolvida em um ciclo de automutilações incentivadas por usuários da plataforma. Ele expressou o choque ao perceber que sua filha poderia ter tido um destino trágico similar.
Os primeiros sinais surgiram durante um passeio de barco, quando uma amiga da família notou cortes no corpo da menina, escondidos sob uma blusa de proteção UV. Confrontada pelo pai, a filha não negou e, ao ser questionada, revelou mutilações na virilha. Inicialmente, Paulo não associou os atos da filha a desafios online ou à internet.
O Papel do Celular e a Pandemia
Criando a filha sozinho, Paulo descreve a menina como introspectiva e com dificuldades de integração social. Na tentativa de ajudá-la a socializar, ele a presenteou com um celular, sem prever as consequências. Durante a pandemia de Covid-19, o uso de telas pela filha intensificou-se, transformando-se no que ele hoje identifica como um vício. Ela passava horas jogando Minecraft e Roblox, e assistindo a tutoriais no YouTube. Foi através do Roblox que ela foi introduzida ao Discord.
O isolamento da filha e sua dificuldade em interagir socialmente tornaram-se mais evidentes com o retorno às aulas presenciais, conforme o pai observou.
O Clímax e a Revelação Chocante
Após o incidente no barco, as automutilações da filha tornaram-se mais visíveis, atingindo pulsos e braços. Em um episódio crítico, ela tentou tirar a própria vida, sendo levada ao hospital e iniciando acompanhamento psiquiátrico e psicológico. Paulo, a princípio, atribuiu o comportamento ao trauma da perda da mãe e à sensação de exclusão.
No entanto, a verdadeira extensão do problema veio à tona quando a filha, em um surto, o chamou ao seu quarto. Encontrando-a com múltiplos cortes e sangrando, ela implorou: “Pai, eu surtei, me interna!”. Enquanto a levava ao hospital, Paulo confiou o celular da filha a uma funcionária da família, pedindo que ela investigasse o conteúdo. As descobertas foram alarmantes: vídeos da filha se mutilando, registrando os atos com um “joinha” e proferindo frases como “Eles me obrigaram a tatuar uma suástica no meu rosto, eles me obrigaram a me queimar com fósforos, eles me obrigaram a jogar perfume em cima das minhas feridas, eles me obrigaram a beber água da privada.”
Capturas de tela revelaram diálogos de um grupo onde o termo “LULZ” era frequente. Paulo descobriu que LULZ, uma gíria da internet derivada de “LOL” (laughing out loud), refere-se à diversão obtida com o sofrimento alheio. Ele percebeu que sua filha participava de “panelas” no Discord, grupos fechados onde adolescentes se incentivavam a praticar atos de automutilação e outros desafios perigosos, sem monitoramento. Ele descreveu a dinâmica como uma versão sórdida de “o mestre mandou”, onde jovens agiam como vilões e vítimas simultaneamente.
Da Culpa à Ação e o Alívio da Compreensão
A descoberta, embora chocante, trouxe a Paulo um alívio por finalmente entender a causa do sofrimento da filha. Ele notou que os cortes eram mais frequentes aos domingos, dias em que ela participava intensamente desses grupos de desafio.
Desde então, a filha recebeu tratamento contínuo e, aos 15 anos, está recuperada, dedicando-se à academia e ao teatro. O processo incluiu a proibição total de celulares e redes sociais inicialmente, com o acesso sendo gradualmente restabelecido, mas sob estrita supervisão do pai. Paulo expressa culpa por não ter compreendido os perigos do ambiente online antes, comparando a internet a uma “rua à enésima potência” onde os pais devem proteger seus filhos.
A escrita do livro foi sua forma de alertar outros pais, reforçando a importância da vigilância e do conhecimento sobre as plataformas digitais. Ele apoia o debate sobre a regulamentação do Discord e a decisão da ANPD de suspender transmissões ao vivo na plataforma no Brasil, vendo-as como medidas necessárias para responsabilizar as empresas e garantir um ambiente seguro para os jovens.
Resposta do Discord
Em comunicado, o Discord afirmou à BBC News Brasil que não tolera violência e está cooperando com as autoridades na investigação do caso de Naviraí (MS). A empresa destacou seu compromisso com a segurança dos usuários, a remoção de conteúdo que viola suas políticas e a atuação proativa na comunicação com autoridades brasileiras para desarticular grupos e indivíduos responsáveis por condutas inadequadas.