Transformação na Composição Diplomática dos EUA
A diplomacia dos Estados Unidos tem experimentado uma transformação notável sob o segundo mandato do ex-presidente Donald Trump. Conforme dados divulgados pela Associação Americana do Serviço Estrangeiro (AFSA), que representa os profissionais do Serviço Exterior americano, 90% das 102 indicações para cargos de embaixador feitas por Trump são de indivíduos com laços políticos, enquanto apenas 10% são diplomatas de carreira. Este cenário marca uma ruptura com o padrão histórico da diplomacia americana.
Desvio da Norma Histórica
Tradicionalmente, a diplomacia dos EUA seguia uma proporção informalmente conhecida como a "regra 70/30", onde aproximadamente 70% dos embaixadores eram diplomatas de carreira e 30% eram nomeações políticas. A metodologia da AFSA classifica como funcionários de carreira apenas aqueles que construíram sua trajetória no Serviço Exterior, enquanto todas as outras indicações — incluindo doadores, aliados partidários, membros do círculo presidencial ou servidores públicos sem carreira diplomática — são consideradas políticas.
Desde o governo de Gerald Ford (1974-1977), os registros históricos mostram que a maioria dos postos de embaixador foi ocupada por profissionais de carreira. Embora os primeiros mandatos de Trump e do democrata Joe Biden tenham apresentado uma ligeira diminuição na proporção de técnicos para cerca de 60%, essas administrações ainda mantinham um certo equilíbrio. O atual panorama do segundo mandato de Trump, com apenas 10% de diplomatas de carreira entre os indicados, representa uma alteração sem precedentes.
Perfil dos Indicados por Trump
A mudança não se restringe apenas à quantidade, mas também ao perfil dos escolhidos. Trump tem optado por nomear doadores, amigos, aliados políticos e pessoas de sua confiança para as representações diplomáticas americanas globalmente. Por exemplo:
- No Reino Unido, o cargo foi concedido a Warren Stephens, um banqueiro do Arkansas e doador do Partido Republicano.
- Na França, a escolha recaiu sobre Charles Kushner, pai de seu genro Jared Kushner.
- Para Israel, o indicado foi Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas e ex-apresentador de TV, conhecido por ser um dos aliados evangélicos mais próximos do ex-presidente.
Uma investigação do jornal Washington Post revelou outras indicações notáveis:
- Para o Egito, Trump nomeou Nick Oberheiden, um advogado de 48 anos sem experiência diplomática formal e sem vínculos públicos conhecidos com o país africano. Oberheiden, que representou clientes alinhados ao governo Trump e doou cerca de US$ 1,3 milhão para comitês de apoio à campanha republicana, exemplifica a tendência.
- Nas Filipinas, Lee Lipton, proprietário de um restaurante em Palm Beach e membro do clube Mar-a-Lago, foi o embaixador escolhido. Ele também realizou doações para comitês de apoio ao presidente em ciclos eleitorais recentes.
- No Peru, Bernie Navarro, um executivo imobiliário da Flórida com histórico de doações significativas aos republicanos, foi nomeado. Manila e Lima não recebiam embaixadores politicamente indicados há décadas.
A escolha de aliados se estende também à família e ao círculo pessoal de Trump. Steve Witkoff, empresário do setor imobiliário, atua como enviado especial para missões diplomáticas de alto escalão. Jared Kushner, genro e assessor sênior de Trump, está envolvido em negociações relacionadas a conflitos no Oriente Médio.
Déficit Diplomático e Implicações
Essa preferência por indicações políticas ocorre em um momento em que o governo enfrenta um considerável déficit de titulares nas missões diplomáticas. Segundo a AFSA, mais da metade das representações diplomáticas dos EUA no exterior está atualmente sem um embaixador nomeado.
O processo de reformulação é liderado por Marco Rubio, secretário de Estado, conhecido por suas críticas à esquerda latino-americana. Recentemente, o Departamento de Estado americano revogou o visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Essa decisão teria relação com a demora do Brasil em conceder o agrément ao diplomata Daniel Perez, indicado por Trump para assumir a embaixada dos EUA em Brasília, e que teve seu nome aprovado pelo Senado.