O jornalista Carlos Monforte, uma das figuras centrais na criação do formato de âncora no Brasil e apresentador do 'Bom Dia Brasil' desde sua estreia em 1983, faleceu neste domingo (31) aos 77 anos. A informação foi confirmada pela GloboNews, mas a causa da morte não foi divulgada até o momento. Monforte deixou um legado de quase quatro décadas na TV Globo e na GloboNews, cobrindo momentos decisivos da história política e social do país.

Trajetória marcada pela inovação no jornalismo televisivo

Nascido em Santos, em 1949, Carlos Monforte iniciou sua carreira no jornalismo impresso, passando por veículos como A Tribuna e O Estado de S. Paulo. Sua entrada na TV Globo, em 1978, como repórter local em São Paulo, marcou o início de uma trajetória que o levaria a se tornar uma das vozes mais reconhecidas do telejornalismo brasileiro. Entre suas coberturas iniciais, destacam-se as greves dos metalúrgicos no ABC, um dos movimentos sociais mais significativos da época.

O legado do 'Bom Dia Brasil' e a definição do papel do âncora

Em 1983, Monforte assumiu um desafio que mudaria o curso do telejornalismo no Brasil: apresentar e editar o recém-criado Bom Dia Brasil, o primeiro telejornal da TV Globo gerado diretamente de Brasília. O programa, estruturado em cerca de 20 dias, inovou ao combinar política, economia, entrevistas ao vivo e os bastidores do poder em um único formato. Monforte, que não gostava do termo "âncora" por considerá-lo carregado de conotações que não refletiam seu trabalho, explicou em entrevista ao projeto Memória Globo que, no Brasil, o âncora também atuava como editor-chefe, definindo a pauta e a ordem das notícias.

"O âncora americano é o que apresenta o jornal, simplesmente. Ele não dá um palpite, não dá uma opinião", afirmou Monforte, destacando a diferença entre o modelo brasileiro e o internacional. Sua visão ajudou a moldar o papel do apresentador de telejornal no país, equilibrando imparcialidade e profundidade na cobertura dos fatos.

Coberturas históricas e o episódio com Rubens Ricupero

Após uma passagem pela Confederação Nacional da Indústria, Monforte retornou à TV Globo em 1994 como repórter especial do Jornal da Globo, em Brasília. Foi nesse período que seu nome ficou associado a um dos episódios mais emblemáticos da política brasileira: a conversa informal do então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, captada acidentalmente por antenas parabólicas antes de uma entrevista. O vazamento, que revelou declarações polêmicas do ministro, teve repercussão nacional e levou à sua renúncia.

Monforte, que passou dois dias sem dormir após o episódio, sempre defendeu sua conduta ética. "Não provoquei o episódio nem agi contra a ética jornalística", declarou posteriormente, reforçando seu compromisso com a imparcialidade e a responsabilidade na cobertura de fatos sensíveis.

Contribuições para a GloboNews e o fim de uma era

Na GloboNews, Monforte atuou como coordenador em Brasília e apresentou programas como Jornal das Dez, Espaço Aberto, GloboNews Política e Fatos e Versões. Sua carreira, que se estendeu até 2016, atravessou períodos cruciais da história brasileira, como a redemocratização, a criação do Plano Real e décadas de cobertura política. Monforte não apenas informou, mas também ajudou a ensinar o país a acordar com as notícias, colocando Brasília no centro das atenções.

Com sua morte, o jornalismo brasileiro perde uma figura que testemunhou e ajudou a construir a narrativa de alguns dos momentos mais importantes do país. Sua voz, que ecoou por quase 40 anos nas telas, será lembrada como parte fundamental da história do telejornalismo nacional.