A Amizade Como Ponto de Partida Para a Narrativa
A história por trás do filme “Honestino”, lançado recentemente, tem suas raízes em uma amizade profunda. O diretor Aurélio Michiles e Honestino Guimarães, líder estudantil assassinado em 1973, compartilharam momentos marcantes durante a ditadura militar. Um desses episódios, em 1970, os mostrava assistindo a um filme de Federico Fellini, com Honestino buscando tranquilizar um receoso Aurélio em meio à perseguição política.
Aurélio Michiles, que chegou a Brasília em 1968 vindo de Manaus, conheceu Honestino quando ainda era estudante do ensino médio, enquanto Honestino já era uma figura proeminente no movimento estudantil da Universidade de Brasília (UnB). A relação, descrita por Aurélio como uma amizade, foi o catalisador para a produção do filme, uma ideia que, embora sempre presente, demorou a ser concretizada devido à natureza dramática e trágica da trajetória de Honestino.
O Despertar da Memória e a Produção do Filme
A decisão de finalmente transformar essa memória em filme surgiu de forma inesperada. Ao receber um vídeo da reinauguração da ponte Honestino Guimarães, onde o neto do líder estudantil discursava, Aurélio Michiles foi profundamente tocado. Esse momento o impulsionou a iniciar o projeto. A escritora Isaura Botelho, em seguida, forneceu uma caixa contendo objetos pessoais de Honestino, como cartas, fotografias e documentos da Ação Popular, que se tornaram um tesouro para a produção.
Nesse processo, Aurélio encontrou Nilson Rodrigues, um produtor de cinema brasiliense que já nutria uma ideia similar. A colaboração entre os dois foi crucial para transformar a intenção em uma produção cinematográfica concreta, mergulhando no arquivo e na memória para resgatar a história de Honestino.
Entre o Arquivo e a Memória: A Busca por Uma Dramaturgia
O desafio de filmar um período como a ditadura militar exigiu mais do que a simples reunião de documentos. Inspirado por Alberto Cavalcanti, que via a fusão entre documentário e ficção, Aurélio Michiles buscou uma narrativa que transcendesse a mera compilação histórica. O objetivo era criar uma dramaturgia capaz de conectar o passado e o presente, revelando a metáfora por trás da história de Honestino.
O filme não se limita a apresentar Honestino como uma vítima, mas sim como um indivíduo que enfrentou os dilemas de sua geração e tomou decisões embasadas nas questões políticas de seu tempo. Sua história é contextualizada dentro dos desafios atuais de defesa da democracia, buscando iluminar um capítulo ainda obscuro da história brasileira.
O Significado de Lembrar e a Busca por Justiça
As imagens em preto e branco e os documentos históricos registram os fatos, mas não conseguem transmitir a vivência sob ameaça. Aurélio Michiles, ao realizar o filme, tinha um desejo simples: levar o público a conhecer o jovem que dedicou sua vida à liberdade e à democracia. Honestino Guimarães foi assassinado aos 26 anos pela ditadura militar, e seu corpo nunca foi encontrado, deixando uma ferida aberta na história do Brasil.
O cineasta expressa a esperança de que o filme não apenas familiarize o público com a história de Honestino, mas também possa despertar a consciência de alguém que possua informações ainda não reveladas sobre seu desaparecimento. Para Aurélio, seria um ato de justiça para um episódio tão hediondo da história brasileira.