Crystal Hefner fala sobre vida na mansão da Playboy

Crystal Hefner, ex-modelo e viúva de Hugh Hefner — fundador da revista Playboy —, tem dado declarações detalhadas sobre o período em que viveu na célebre mansão da marca. Segundo ela, a experiência foi marcada por controle emocional, regras rígidas e um senso constante de vigilância, elementos que só passou a reconhecer plenamente após a morte de Hefner, em 2017, e após anos de acompanhamento terapêutico.

"Lavagem cerebral absoluta"

Em entrevista ao podcast No One Asked Her, Crystal usou uma expressão contundente para descrever o que viveu: "Eu acho que sofri uma lavagem cerebral absoluta". Ela relatou que, diante da imagem extremamente positiva que a imprensa construiu em torno de Hefner, chegou a questionar a si mesma. "Se todos o veem como esse ser humano incrível, deve haver algo de errado comigo", declarou.

Crystal começou o relacionamento com Hugh Hefner aos 21 anos. O casamento aconteceu em 2012, quando ela tinha 26 anos e ele, 86. Ela permaneceu ao lado do empresário até sua morte, aos 91 anos, cinco anos depois. Atualmente, descreve a união como emocionalmente abusiva, versão que também detalhou no livro Only Say Good Things: Surviving Playboy and Finding Myself, publicado em 2024.

Rotinas que funcionavam como controle

Entre os episódios relatados, Crystal destacou os chamados compromissos fixos da mansão. A noite de cinema, por exemplo, começava às 18h e sua presença era obrigatória. Na época, ela interpretava a situação como parte da rotina da casa; anos mais tarde, passou a entendê-la como um mecanismo de controle sobre seus horários e deslocamentos.

"Era disfarçado de 'essa é a hora da noite de cinema'. Mas era a hora do meu toque de recolher e do meu controle."

Crystal também mencionou que a rotina era tão restritiva que, ao deixar a mansão definitivamente, percebeu que nunca havia aprendido a acender os faróis do próprio carro — porque sempre retornava para casa antes de escurecer.

Exigências sobre aparência e convivência

Segundo a ex-modelo, as cobranças se estendiam à aparência física. Peso, esmalte, roupas, a exibição obrigatória do logotipo da Playboy e até o crescimento da raiz do cabelo eram alvo de comentários e exigências. "Se a raiz estivesse crescendo, ele dava um tapinha e mandava eu consertar", escreveu em seu livro.

Ela afirma que, em vez de questionar o tratamento, intensificava a autocrítica — buscava emagrecer, melhorar a aparência e se adequar aos padrões impostos. Crystal chegou a comparar a dinâmica com o que denomina de "síndrome de Estocolmo", deixando claro que essa é a interpretação pessoal que faz sobre o relacionamento.

A ex-modelo também relatou que havia cerca de 70 funcionários na propriedade, o que reforçava a sensação de estar constantemente sob observação. O contato com a própria família, segundo ela, era limitado, e a bolha criada dentro da mansão fazia com que aquela realidade parecesse normal.

O processo de saída e ressignificação

Após a morte de Hefner, Crystal permaneceu reclusa na mansão por algumas semanas. A retomada da vida fora daquele ambiente foi gradual, construída com auxílio de terapia, distância e tempo. Ela reconhece que, no início do período de viuvez, ainda falava positivamente sobre o ex-marido e demonstrava gratidão pelas oportunidades que teve.

Com o passar do tempo, Crystal passou a apresentar uma perspectiva diferente da que havia sido amplamente divulgada. Em suas declarações mais recentes, ela não nega a existência do glamour associado à mansão, mas sustenta que ele estava acompanhado de regras, vigilância e silêncio impostos sobre sua vida cotidiana.